Por que o Brasil não tem uma Stanford?

Marcelo Saraceni*

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Para entender o nosso cenário atual, precisamos voltar um pouco no tempo. O Brasil foi um dos últimos países das Américas a ter uma Universidade. Somente em 1810 tivemos as primeiras Academias Reais Militares para formar médicos, engenheiros e advogados para atender à Corte Portuguesa, que se estabelecia em nossas terras. Tivemos um lento desenvolvimento do nosso sistema educacional,  principalmente no ensino superior, o que nos levou a um grande atraso  tecnológico, social e econômico. O Brasil assistia o mundo se desenvolver ouvindo o Repórter Esso no rádio. Em 1959, tínhamos pouco mais de 86 mil alunos estudando em uma universidade em todo o Brasil, uma das mais baixas taxas do mundo.


Enquanto isso, os Estados Unidos desenvolviam suas universidades com foco no empreendedorismo, através de uma estreita aliança entre o meio empresarial, o Estado e a universidade, criando complexos ecossistemas de inovação que geravam círculos virtuosos de inovação e empreendedorismo. Stanford talvez seja o mais famoso exemplo desse modelo. Stanford é considerada uma das cinco melhores instituições de ensino superior dos EUA, mas não é isso que a define melhor. Se considerarmos a receita anual das Stanford Startups, chegaremos a um valor superior aos US$ 2,7 trilhões. Corporações como Google, Yahoo, Nike, Sun Microsystems e Hewlett-Packard  foram criadas dentro dela. Diversos fatores contribuíram para isso, como o clima empreendedor de Stanford, seu relacionamento com as empresas que orbitam no campus no Vale do Silício, a pesquisa financiada a partir de metodologias, ferramentas e principalmente negócios embrionários com grande potencial. Incentivadas pelo Estado, essas organizações geralmente tem o seu desenvolvimento alavancado pelo escritório de licenciamento de tecnologia de Stanford (OTL), que é financiado por investidores locais – tudo isso viabilizando um ecossistema inteligente, empreendedor e criativo.

Diversos ecossistemas foram e continuam sendo criados ao longo do tempo, em toda a história da humanidade. O mundo não seria o mesmo se Cosimo de Médici, um banqueiro italiano que possuía um controle político quase total do Estado. não incentivasse o maior intercâmbio cultural da história até então, durante o Concílio de Florença em 1439. Esse concílio tinha o objetivo primário de pacificar a Igreja. Mas, na verdade, ao reunir cientistas, filósofos, artistas, arquitetos, religiosos detentores de grande parte do conhecimento mundial e integrar todo esse conhecimento através da primeira grande biblioteca pública, academias culturais e mecenato, transformou a cidade no berço do renascimento, criando o primeiro ecossistema de inovação do mundo moderno.

A Paris do começo do século 20 foi outro exemplo. Na Europa de hoje, temos o crescimento da Corporación Mondragón, composta por 289 empresas e cooperativas e uma universidade, além de 15 centros de pesquisa e geração de conhecimento. A sofisticada teia de empreendedorismo sistêmico desenvolvida, costurada por alianças duradouras e lucrativas entre as empresas, a universidade e seus centros de pesquisa, além das prefeituras, dos governo basco e espanhol, garante um nível de empreendedorismo, inovação e desenvolvimento sem parâmetros na Espanha atual, afetada por uma grave crise.

Por quê então não desenvolvemos ecossistemas como Florença, Paris, Stanford, Mondragón e diversos outros no Brasil? Se temos uma tão alardeada capacidade de inovação, se temos exemplos fantásticos de grandes empreendedores, se durante alguns anos fomos umas das estrelas do desenvolvimento mundial, por que não conseguimos criar nada parecido?

Em primeiro lugar, para que isso aconteça é preciso vontade política e apoio do Estado. Precisamos de políticos e gestores públicos visionários, dispostos a planejar e investir a longo prazo – ainda que os dividendos dessas ações demorem mais a aparecer do que seus mandatos a acabar. Em segundo lugar, é crucial contar com grupos educacionais privados ou reitores de instituições públicas dispostos a quebrar paradigmas mercadológicos e estruturais limitantes. Em terceiro, empresas que vislumbrem todo o potencial em produtividade e inovação originado por um ecossistema de inovação a médio e longo prazo.

Se conseguirmos transpor essas barreiras, o gigante acorda de vez.

*Marcelo Saraceni é presidente da Associação Brasileira das Instituições de Pós-Graduação (ABIPG)

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